Multifocal, porque são múltiplos espaços. E alguém que acredita na construção poética de significados.
domingo, 7 de abril de 2013
Sentido de novo
De novo observo minha avó pelo dia,
as suas mãos rasas de carne contrapõe os sulcos do rosto
e afrontam minhas certezas sobre o correr da vida.
Tem pelos tão claros quanto os olhos, profundamente
mergulhados no preparo do bolo de todas as tardes,
na redescoberta dos gostos
dos mesmos ingredientes
misturados e sentidos diferentes.
Traz em si uma graça, que quase me escapa,
em compreender que a mistura da vida
não se conserva
que a alguns sabores não se pode mais sentir
apenas porque já não têm o que acrescentar, incrementar
a massa, que ainda sim - cresce
transformada,
mesmo que apenas pela mudança na ordem dos olhares.
A tal ponto do mergulho, o calor do forno a desperta
e ela caminha, com seus passinhos lentos e curtos,
da pia até o fogão:
lança ao forno o preparo, sorri e me olha
com seus olhos de águas claras.
Vejo vida e mais vida a transpor a idade que ela
carrega no corpo.
Corredeira de sentimentos, entendo
como tanto do mesmo pode-se fazer novo, de novo.
terça-feira, 2 de abril de 2013
sexta-feira, 29 de março de 2013
Ludibriado
As divisórias tampam o seu rosto, posso ver apenas a nuca reclinada sobre o banco. Deduzo sua agonia pelo compasso escandaloso de seus pés. Eles parecem agitados, como se - apesar do esforço - a mente já tivesse saltado da cabeça e escorrido até a extremidade do corpo. Falta pouco para sair. É como uma revolução que silenciosa muda todo o mundo de dentro. A poucos segundos do fim, o compasso já se tornou outro: agora seus pés se balançam mudos, em um ritmo mais lento, como se uma força chamasse tudo de volta. E então a batalha segue equilibrada (?). Começo a me embalar quando ele muda mais uma vez. Ele está ali a induzir-me a um único pensamento: pressa. Mas ele corre de quê? Ou corre para o quê?
(Essa maneira de seguir pelos dias é tão comum, que já não vejo razão de me concentrar em sua confusão.) Viro, mas não consigo ignorar que estou viciado nessa loucura diária, preso nesse estado, fora de mim. Estico o pescoço e olho o cenário ao redor... Também estou sentado, quieto na intensa movimentação, no ir e vir, sentir e não ficar. A senhora dos olhos cor de azeitona me observa pela fresta que criou entre seus olhos e o jornal. Ela parece estranhar-me... Encaro-a e logo retoma leitura, deixando a brecha no papel para uma próxima olhadela. Penso dizer algo, mas não há tempo... Lembro-me do homem e me torço um pouco para lhe ver. Agora tem a vista introspectiva sobre mim, há um certo desespero em seu olhar.
Quem é esse senhor mergulhado na urgência desnecessária dos dias? Olho para os meus pés, que nervosos disparam como os dele. Levanto e ele some, abaixo e aí está. Ironia... Não entro ou saio. Permaneço passageiro de mim, refém dos meus olhares, da minha mente censurada. E a passagem é cada vez mais cara. Corro da vida? Com quem estou na disputa do tempo? Sigo, apenas vou no ritmo... E me mato pela exigência de viver sem buscar entender a extensão, o sentido ou o sentimento na palavra. Traio a vida que corre por mim, me separo, sou vários, mas quais são eu?
(Está quase na hora. Vou chegar atrasado de novo. Olho o relógio. Não. Haha! Hoje vai dar até para tomar um café! Então vagarosamente descanso os pés do balanço, tomo um compasso simples no embalo. Melhor esquecer toda essa loucura.)
Mas quem é que defendo? Sigo nesse ciclo, fora de onde sou, estou. Insisto em parar... Corro em um tempo que não me toca.
(Essa maneira de seguir pelos dias é tão comum, que já não vejo razão de me concentrar em sua confusão.) Viro, mas não consigo ignorar que estou viciado nessa loucura diária, preso nesse estado, fora de mim. Estico o pescoço e olho o cenário ao redor... Também estou sentado, quieto na intensa movimentação, no ir e vir, sentir e não ficar. A senhora dos olhos cor de azeitona me observa pela fresta que criou entre seus olhos e o jornal. Ela parece estranhar-me... Encaro-a e logo retoma leitura, deixando a brecha no papel para uma próxima olhadela. Penso dizer algo, mas não há tempo... Lembro-me do homem e me torço um pouco para lhe ver. Agora tem a vista introspectiva sobre mim, há um certo desespero em seu olhar.
Quem é esse senhor mergulhado na urgência desnecessária dos dias? Olho para os meus pés, que nervosos disparam como os dele. Levanto e ele some, abaixo e aí está. Ironia... Não entro ou saio. Permaneço passageiro de mim, refém dos meus olhares, da minha mente censurada. E a passagem é cada vez mais cara. Corro da vida? Com quem estou na disputa do tempo? Sigo, apenas vou no ritmo... E me mato pela exigência de viver sem buscar entender a extensão, o sentido ou o sentimento na palavra. Traio a vida que corre por mim, me separo, sou vários, mas quais são eu?
(Está quase na hora. Vou chegar atrasado de novo. Olho o relógio. Não. Haha! Hoje vai dar até para tomar um café! Então vagarosamente descanso os pés do balanço, tomo um compasso simples no embalo. Melhor esquecer toda essa loucura.)
Mas quem é que defendo? Sigo nesse ciclo, fora de onde sou, estou. Insisto em parar... Corro em um tempo que não me toca.
sexta-feira, 15 de março de 2013
Entre o Toque
Fotografia de Iasmin Rabelo
Vão seus dedos a emoldurarem dobraduras.
As unhas, na pele, percorrem vagarosamente os vértices,
ao quase encontro de nossas faces.
Vira e revira o papel, a metade, o todo.
Como nossos corpos -
a reconstruírem o espaço.
E então, carinhosamente desfaz a arte do toque.
Lança ao mar o barquinho de sentimentos.
Quem saberá o rumo?
domingo, 3 de fevereiro de 2013
Planta
É tanto projeto
que introjeto em mim
a ideia de seguir sempre o mesmo trajeto,
fazer os laços se encontrarem no mesmo ponto
e não amolecer o olhar, desfocar as lentes
já cansadas de enxergar sem sentir.
São tantos planos
que já nem posso ver o tijolo que obstruiu
a ponte que me atravessa.
São muitas hipóteses
duramente construídas somente para
esfriar as chances de novos ANDARes...
É tanto projeto
que começo a me projetar
em sonhos, ilusões e caminhos
que não cabem no meu papel.
quarta-feira, 30 de janeiro de 2013
Gracejo
A brincadeira cresceu rápido demais.
Os olhos da criança agora tem o tamanho do desespero,
da malícia, do desejo.
Vejo algum sonho escondido no seu rosto,
mas o semblante é duro e sarcástico.
da malícia, do desejo.
Vejo algum sonho escondido no seu rosto,
mas o semblante é duro e sarcástico.
Tem cabelos pretos quebradiços, fios oleosos e arrepiados,
roupinhas sujas, pés castigados, mãos pequenas...
roupinhas sujas, pés castigados, mãos pequenas...
Talvez se lembrem de como bailar com o vento,
mas tem que se estender, dia-a-dia.
.
Ele me pedia dinheiro como se fosse rei
e eu precisasse pagar os impostos.
Tinha um isqueiro que empunhava como espada.
O controle era seu,
um sorriso escancarado enchia seu rosto,
com dois ou mais dentes coloridos de cárie.
Eu tinha raiva, a raiva tomava todos meus sentidos.
Aí ele pegou meus cabelos, fez que ia queimar,
mas enrolou um cacho nos dedos.
E ria... se ria... aquilo para mim soava quase como um choro.
.
Ele me pedia dinheiro como se fosse rei
e eu precisasse pagar os impostos.
Tinha um isqueiro que empunhava como espada.
O controle era seu,
um sorriso escancarado enchia seu rosto,
com dois ou mais dentes coloridos de cárie.
Eu tinha raiva, a raiva tomava todos meus sentidos.
Aí ele pegou meus cabelos, fez que ia queimar,
mas enrolou um cacho nos dedos.
E ria... se ria... aquilo para mim soava quase como um choro.
Então entendi que era eu: seu único brinquedo.
quarta-feira, 27 de junho de 2012
O jogo do social insociável
Vai! Que é a bola da vez!
Falar para não escutar,
já pensar em como não fazer
e justificar, inventar não ir além
do espaço que marcaram.
Espera a sorte na quadra, quina...
A ficha cai.
Arrumem outra nova ou peguem de volta!
Entrem também!
Pingue-pongue social,
aqui o jogo não para.
Falar para não escutar,
já pensar em como não fazer
e justificar, inventar não ir além
do espaço que marcaram.
Espera a sorte na quadra, quina...
A ficha cai.
Arrumem outra nova ou peguem de volta!
Entrem também!
Pingue-pongue social,
aqui o jogo não para.
quinta-feira, 17 de maio de 2012
Passageiro
Observo as gotas se chocarem contra o vidro embaçado
e elas nunca me atingem.
As luzes escorrem do outro lado da janela...
tudo que vejo é o contraste da noite nos faróis e postes.
Pneus soam sob o asfalto molhado
e em um deslize meus pés se lançam sob as poças, brincam no chão,
como em um tempo que eu não tropeçava para entrar na dança.
Mas o semáforo finge o verde e a carcaça de metal range com os freios.
Chove forte em mim
e estou fechado num bloco retangular,
Cinza e Quente. Não há equilíbrio.
Trancado em um corpo estranho,
em movimento constante.
Tudo é só de passagem.
Já muito distante, penso no trajeto que fiz...
quanta gente embarcou, em quantos buracos cai.
Passageiro da minha vida
e ela não passa por aqui.
TROCADOR, em que ponto eu desci?
Acho que esqueci de mim.
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012
Beijos e Cadeados
No encontro dos olhares
a visão se anulava.
Em que se acredita sem sentir?
a visão se anulava.
Em que se acredita sem sentir?
Era cegueira e também
fome de beijos e cadeados...
À beira do caos, correram – dois lados.
Traçaram paralelos...
fome de beijos e cadeados...
À beira do caos, correram – dois lados.
Traçaram paralelos...
Condenados à linha tênue
entre aperto e espaço,
eternizaram o encontro em uma estátua.
- Elevaram ao centro.
Estático, o sentimento entrou em coma.
entre aperto e espaço,
eternizaram o encontro em uma estátua.
- Elevaram ao centro.
Estático, o sentimento entrou em coma.
Fotografia de Erik Kolstad - Estátuas de escravos de Zanzibar
terça-feira, 13 de dezembro de 2011
Das revisões interiores
Coloquei todas as peças no tabuleiro,
eu contra mim no Xadrez
Eu era tantas que nem sabia.
Pensei em fugir,
mas por todos os lados me conheciam!
O Xeque veio a cavalo.
Entre celas e estrada,
quem quer que eu Mate?
.
eu contra mim no Xadrez
Eu era tantas que nem sabia.
Pensei em fugir,
mas por todos os lados me conheciam!
O Xeque veio a cavalo.
Entre celas e estrada,
quem quer que eu Mate?
.
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