domingo, 25 de outubro de 2009

A casa

Ela já não via a hora do natal. Não que aquela garotinha gostasse de natal ou guardasse em si crenças religiosas. Gostava porque gostava. Porque percebera que perto do natal tudo é feliz, que as luzinhas brilhando a noite davam uma sensação de calor humano, de vida em uma cidade onde tudo é solidão. Gostava das lojas cheias de enfeites, ainda que acreditasse ser aquilo um tremendo consumismo. Talvez fosse porque enfim as pessoas adquiriam a união e coletividade, ao menos naquele período natalino.
Numa de suas andanças boêmias, se deparou com uma cena que a fez chegar em uma de suas afáveis opiniões. Na ocasião, estava em um bairro daqueles em que no natal, as casas se fantasiam de cores, luzes e personagens que criavam vida. Nunca entendera porque cargas d'agua aquele homem gordo, de vermelho e barba branca era símbolo natalino. Mas suas conclusões a respeito daquele ficaram para outros natais. Neste, ficara tão concentrada que não sobrara tempo para nenhum outro pensamento.
Aconteceu o seguinte, no meio de tantas casas vivas, uma ali tinha um brilho diferente, talvez pela falta de luzes. Como se fosse uma fogueira que teima para se manter acesa, que queima até se esgotar e só apaga porque a lenha acabou já que o vento carrega pra frente. Do lado de fora, uma estrelinha meio apagada e suja, teria sido pendurada perto do telhado.
Enquanto as gotículas da chuva faziam tectectictictac na janela, uma criança observava o mundo do lado de fora por entre o vidro. Tinha um ar singelo, sem melancolia que machuca a alma. Era um menino, um menino e uma casa. A casa e o menino. Um só, um mesmo mistério. O que estaria pensando aquela criança que, provavelmente, passara todos os natais fixada nas casas com muitas luzes, estrelas brilhantes, bolinhas coloridas e árvores enfeitadas enquanto a sua segurava apenas a uma estrela pequenina? O que fora aquela criança durante todo este tempo?
A garotinha que se encantava com os natais, passou então a observar aquele menino todos os dias. Afim de que seus olhos pudessem se encontrar e sua face lhe mostrasse porque ele se escondia das cores. A mesma coisa fez durante duas semanas, até que o garoto, com um gesto assaz prudente chamou-a para entrar. E ela, quando se deu conta, já estava com os pés no carpete da varanda, um tanto assustada. Ao contrário do que sua imaginação houvera bolado, ali era um lugar iluminado, uma árvore no meio da sala de estar deixava o ar mais leve. Tudo irradiava cores.
Assim são as pessoas, dizia o garoto, aquelas que pouco se preocupam em se mostrar são justamente aquelas que mais têm para oferecer. As pessoas que mais se escondem são as que são encontradas por uma causa maior. Aprenda que a luz deve ser percebida e não olhada. Que as pessoas mais escuras por fora são aquelas que irradiam por dentro. E tudo o que precisamos é apenas permitir que nossa estrela aponte o sinal da vida, que ela se acenda para aqueles que conseguem ver. Tudo o que se enfeita de mais por fora é pra suprir o que falta do lado de dentro. E ninguém nunca conseguiria se mover normalmente com três pernas. Porque não foi feito pra ser assim, porque eu não posso ser mais do que aquilo que existe em mim mesmo. Eu posso estar contido em outros conjuntos mas não posso conte-los em mim. Essa é a matemática da vida, a função dos seres.
A partir daquele momento, os natais nunca mais foram os mesmos para ninguém. Porque o ninguém das pessoas é tudo aquilo que de alguma forma aja sobre os cada uns espalhados pelo mundo. Aquela garotinha aprendeu que todos têm o poder de escolher a casa em que vão querer entrar, de onde colocarão suas luzes para brilhar, se ficarão com o jardim ou os carros. E que essas escolhas são aquelas que farão com que as casas se iluminem das luzes artificiais ou não.

sábado, 17 de outubro de 2009

As crianças despertam


O vento sopra forte lá fora.
O dia amanheceu poesiando e musicalizando.
Sim, tudo ao mesmo tempo!
Tirtilintando sonhos
e balbuciando sorrisos...
Embaixo de mim,
os campos.
Assisto do último andar crianças subindo em árvores
e árvores crianças sincronizando danças ao vento.
Ouço o barulho das bolinhas de gude rolando.
Silêncio agitado.
Todos os pequenos me cabem.
E já me cansei do último andar;
de ser espectador das minhas crianças.
Elas me pediram para voltar.
Pulei da sacada,
para sonhar.
Alcancei vôo
e os meus pequeninos me rodearam.
Voando pelos bosques infinitos
Irradiando cores
Deixando cair a tempestade de poesia
enquanto a lua cantava amores.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Poema Sujo

Tanta coisa pra fazer
e a sincera vontade de não fazer nada
Pensamentos que se pudessem
pegariam suas pernas e sairiam correndo.
Sinto em mim o peso de vidas inteiras
e o descompasso de não saber o que fazer.
Da vontade de ser encontrada
sem antes encontrar a mim mesma.
Hoje se eu pudesse,
jogaria tudo que colocaram sobre mim
em um abismo infinito.
E correria pro vale mais distante
pra fazer um trato com minha solidão.
Porque a chuva caindo em uma tarde fria
dói demais quando se está sozinho.
Preciso de um tempo para não pensar, não ver,
não sentir essa puta dor que não entende porque dói tanto.
Mas minha inconstância é grande demais pro equilíbrio.
E os pequenos me disseram que eu não conseguiria
ao menos que decidisse não mais sentir.
Quero então dormir no sono mais profundo
que os mortos jamais ousaram experimentar.
Pra mais tarde voltar a mim.
Pra ser o eu que se perdeu nos meu caminhos.